Enquanto era tomado por uma fome agressiva, eu cortava as cenouras cozidas no prato. Talvez fosse sua textura quase que aveludada que causava aquele desconforto durante a conversa, ou se, era aquele efeito de pincel oleoso lambendo por cima a cenoura. Seu rosto pálido e sereno maquiava bem seu desespero, sentia isso por dentro, como se estivesse apodrecendo lentamente ao ritmo que a vida a levava. Sempre dizia estar tudo bem, mas naquele momento de sua vida ela havia perdido o controle.
Todas elas picadas minuciosamente, perto dos pedacinhos de carne elas exalavam um suave aroma. Estavam tão fritas que se sentia só de olhar, que elas queimariam nos próximos segundos. O que se podia ver no ar quando persistia na conversa? Fagulhas douradas e um olhar insano de quem vê a sombra negra. Ela a aguardava pacientemente com o cutelo em mãos anos a fio. Temos muitas cenouras ainda.
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