26 de abril de 2012

Opiniões



Quando deixamos de expressar o que pensamos para supostamente não magoar os que nos rodeiam um frenesi de emoções nos invade a uma velocidade sônica. Um momento de ira, depois certa angústia e que finalmente se transforma em indiferença ideológica reprimida. Mas fazer isso com frequência acaba nos consumindo por dentro, até que uma pequena fagulha incendeia tudo e queima tudo, mesmo quem não foi o causador desse acúmulo. Não é possível trocar a ira por indiferença ideológica sem que alguma sequela seja deixada para trás. Não se pode ser amigo de todos, por mais que se tente ou mesmo que se queira de verdade, essa é uma regra que rege todos os seres humanos sem distinção. A relação que temos com a tecnologia hoje em dia nos afasta, isso sabemos, mas ela também é responsável por concessões que fazemos o tempo todo para conseguir se aproximar das pessoas ou mesmo mantê-las por perto. Com o contato físico cada vez mais restrito devido ao tempo que cada um dispõe, ficamos no virtual mesmo. E esse simulacro sugere que a solução para não se perder essas amizades virtuais tão essenciais é ceder, deixar de opinar com veemência e ser indiferente. Claro que temos de ponderar as palavras e respirar fundo antes de declamá-las, a máxima de que não se deve aumentar o tom de voz e sim melhorar os argumentos é válida quase sempre. Só não podemos deixar nossas opiniões guardadas em casa e sair balançando a cabeça positivamente a todo instante tentando ser político e simpático. Precisamos de pessoas de verdade.

2 de fevereiro de 2012

O livro do pai

Todos os dias o pai acordava o galo com uns berros no quintal de terra batida e grama rala. Ia até o barracão no fundo da casa, local sagrado que só ele podia entrar. Sabíamos que ele tinha alguns segredos, mas nunca questionávamos. O pai era calmo e muito sábio, mesmo se ter frequentado a escola entendia dos mistérios do universo como um grande mestre arcano.

- Geraldo e Euclides, acordem! 

Gritou lá do fundo já com duas pás, uma enxada e uma peneira.
Os dois, únicos homens da linhagem de seis mulheres, algumas legítimas outras oriundas de escapadas soturnas ao longo dos anos, mas que gozavam do mesmo amor paterno. Eram dois guris terríveis, mas que amansavam na presença do pai, curiosamente nunca havia levantado a mão para nenhuma de suas crias, mas as petrificava de medo somente com um olhar.

- Já tâmo indo pai, a Zélia tá terminando o café.

O pai entrara de novo na casa e sem dizer nada foi até um dos armarinhos amarelos na parede, abriu a terceira porta e apanhou uma garrafa de aguardente, que sempre se via pela metade. Todas as manhãs ele tomava um gole da bebida. E quando o fazia perto de algum dos filhos avisava para nunca mexerem na garrafa.

- Prontinho pai, cafezinho pro senhor.

Exclamou Geraldo já em pé antes do irmão. Eram grudados, mas tinham seus momentos constantes de rivalidade. O pai assentiu com a cabeça, agradeceu Zélia e tomou um gole. Euclides já havia terminado e ia em direção da porta junto do irmão. Uns metros para fora da casa Zélia gritou o pai e perguntou o que ele queria falar na noite anterior. O pai voltou em silêncio e sutilmente a abraçou bem forte.

- Zélia minha filha, quero que faça um suéter bem bonito pra mim, pois será o último que usarei.
- Que isso pai, fica falando essas coisas ai. 

Não perguntou que cor era, mas parecia que sabia exatamente como o pai queria o suéter. Ela ficou paralisada alguns momentos por saber que o pai falava sério. Ele calmamente se virou para a rua e continuou rumo aos garotos.

- Ontem choveu, o rio está cheio e um pouco grosso, não adentrem muito.
- Sim senhor pai!

Responderam juntos os garotos carregando as ferramentas sem muito esforço enquanto seu pai acendia o palheiro no canto da boca. Há muito aposentado da grande fábrica de automóveis em que dedicou longos anos de sua vida e muito suor na fabricação de milhares de motores populares. Hoje dedicara o tempo restante a extração de areia do braço de rio que ficava a poucos minutos da casa, ao seu pomar e suas tardes pitando o fumo que plantava. Fazia questão de levar as filhas até a porta do colégio de freiras em que estudavam, não sabia talvez que mais tarde nenhuma delas faria caridade em nome de deus.

- É pai, tá meio brabo mesmo! 

Gritou Euclides com a peneira nas mãos.
A carriola estava pela metade de areia fina e peneirada quando o pai disse para irem embora, pois a chuva não tardava a chegar. Sem entender nada, pois eram três horas de uma tarde ensolarada, recolheram tudo e partiram pra casa.

- Pai, o senhor falou pra irmos embora porque ia chover?
- Sim Geraldo, vai chover já já. Mas se quiserem podem ir brincar lá fora.

Os garotos irromperam a porta do barracão, guardaram as ferramentas e como um raio gritante no céu foram pra rua, parecendo animais amarrados que conseguiram cortar as cordas e fugir. Não se passaram nem dez minutos e a chuva lavou todas as ruas e telhados, pegando os desavisados. 

- Nossa que chuva meu deus!

Gritou uma zélia chegando do trabalho ensopada e com algumas sacolas.
Ele ergueu os olhos por trás dos ombros sem dizer nada enquanto enrolava um de seus cigarros sentado em sua cadeira de balaço de madeira já gasta, mas muito confortável.

- O senhor havia me pedido um suéter não é? Posso te entregar semana que vem pai?
- Sim, mas gostaria que me fizesse antes do Natal, pois esse é meu último com vocês.
- Para de falar besteira pai, mas tudo bem, faço pra antes do Natal então.

Voltou a olhar para o fumo deitado sobre a palha de milho quieto e pensativo. Não deveria haver forma fácil de contar sobre sua morte, principalmente para sua filha predileta. 

- Mais uma coisa filha... Quando o pai se for... Quero que fique com o livro preto.
Com um olhar sério e assustado Zélia se aproximou do pai, já entendendo do que ele falava, mas com muito medo do tal livro. Um livro negro de capa dura que aparecia e desaparecia frequentemente na casa, era envolto de mistério. O pai às vezes contava histórias sobre os poderes mágicos do livro e das maldições quando usado indevidamente.
- Ele não esta comigo agora, mas quando o pai se for ele vai aparecer pra você filha, onde você estiver.

Engolindo a saliva como se fosse areia descendo pela garganta, Zélia concordou em ficar com o livro negro, única herança que o pai deixara. Homem justo e trabalhador, mas que não possuía nada de muito valor.
Nas vésperas de Natal Zélia chegou bem cedo em casa, saltitante de felicidade para entregar o suéter amarelo e marrom que o pai pedira. Falava em voz alta na casa vazia chamando pelo pai, até que entrou no quarto e viu seu pai recostado na cama, com um semblante angelical.

- Pai, desculpa acordar o senhor, mas eu trouxe o seu suéter.

Sem resposta chacoalhou o pai já com lágrimas nos olhos, gritava desesperada segurando o pai pela camisa e chorando em seu peito desesperada, soluçava de até engasgar com as lágrimas.
Friamente se recompôs, foi até uma das gavetas da cômoda de mogno e apanhou uma camisa branca engomada e um peletó branco de linho que o pai tanto gostava. Desabotoou a camisa molhada de lágrimas e lhe vestiu todo, pôs o suéter e o paletó.

- O senhor... O senhor... Está lindo pai.

Foi até a sala da casa e discou para alguns parentes comunicando o falecimento prematuro de seu pai. Desligou o telefone e saiu sem se despedir, entrou no carro e desatou mais uma vez a chorar, até olhar no chão do carro e ver o livro negro. A sua espera.

9 de janeiro de 2012

Conto do Herói

Enquanto o antigo herói mexia sua bebida com um palito de dente já mordiscado, refletia imóvel. As vezes desviada o olhar de sua bebida turva, que lhe deixava com impressão de que alguém a pisoteara antes de servi-la, para olhar os bebuns que transitavam de um lado ao outro atrás das poucas criaturas que se assemelhavam a mulheres. Aquilo embrulhava seu estômago. Não escutava nada ao seu redor mais, se encontrava em um momento insólito, se sentia suspenso por cordas imaginárias e regado a bebida barata e porções de comida ruim. Seu silêncio fora interrompido por um nobre senhor que ocupava o assento ao lado do herói.

- Com licença, o senhor esteve no Golfo, não?

Nosso herói encarava atento ao que o nobre senhor dizia, mas por alguma razão não conseguia exprimir nenhuma palavra por entre os poucos dentes de sua boca, há muito castigada por longas batalhas por sua sobrevivência.

- Meu nome é Fletch, muito prazer em conhecer um cavalheiro tão viajado e em boa forma como o senhor.

O herói se maravilhou com o interesse do nobre senhor de chapéu por alguns instantes, mas ainda assim preferiu não lhe falar, apenas o encarava no fundo dos olhos. Era conhecido como o Falcão Peregrino por suas longas viagens, mas se sentia fraco desde que foi derrubado nas planícies americanas. Passou boa parte de sua vida em interrogatórios nas mãos de cruéis homens que o tratavam como um brinquedo. Sobrevivera até ali e não se sentia a vontade para deixar aquele lugar imundo, tinha medo do que poderia encontrar fora dali. Depois de tudo o que passará sua vida já não tinha mais sentido arricar outra vez.

- Sei que o senhor gosta de voar, podemos conversar a respeito. Acrescentou o nobre homem.

Seus olhos brilharam e ele deu um grito bem forte que assustou a todos no recinto, eram as palavras mágicas que ele queria ouvir. Nosso herói se sentiu jovem novamente, com força e astúcia. A felicidade se irradiara que era possível vê-la estampada por cima das cicatrizes envelhecidas de seu rosto. Foi então que o nobre senhor se dirigiu ao dono do recinto e expressou a vontade de sair dali com aquele jovem velho aviador.

- Vou levá-lo.

- São 2 mil réis com a gaiola meu senhor.

- Aqui está, obrigado.